Por David Faria | A Mesa da Cultura
Há acontecimentos culturais que se encerram quando as luzes se apagam, as obras retornam aos seus acervos e o público deixa a sala.
Há outros que deixam alguma coisa para trás.
É sobre estes últimos que quero escrever.
No próximo dia 15 de agosto, Três Marias receberá a abertura oficial da exposição “Guignard e a Escola Mineira , Mestres, Discípulos e Legados”, que idealizo e assino em curadoria ao lado de Zackia Daura. A abertura acontecerá das 16h às 18h, exclusivamente para convidados, no Mar Doce Boutique Hotel.
Mas escrevo hoje para os leitores de Pirapora porque essa história, embora tenha em Três Marias a primeira etapa deste novo percurso, também pertence a Pirapora.
E talvez seja justamente esse o aspecto que mais me entusiasme neste projeto.
A arte seguirá o curso do São Francisco.
Uma exposição rara mesmo para os grandes centros
Não considero exagero afirmar que estamos diante de uma exposição de caráter inédito na região e de uma reunião singular até mesmo quando comparada ao que habitualmente encontramos nos grandes centros culturais.
A mostra reúne obras originais de Alberto da Veiga Guignard, de seus principais discípulos e de artistas diretamente ligados à sua escola, além de gerações posteriores que receberam, transformaram e fizeram reverberar uma das experiências mais importantes da história das artes plásticas de Minas Gerais.
Guignard não foi apenas um extraordinário pintor. Foi mestre.
E alguns mestres deixam mais do que obras: deixam uma maneira de olhar.
Ao redor dele formou-se uma experiência artística que atravessou gerações e ajudou a definir parte fundamental da identidade moderna das artes visuais mineiras.
Na exposição, obras do próprio Alberto da Veiga Guignard estabelecem diálogo com trabalhos de nomes como Sara Ávila, Santa, Jarbas Juarez, Orlando Matos, Farnese de Andrade, Álvaro Apocalypse e Yara Tupynambá.
O percurso alcança ainda artistas vinculados à continuidade e aos desdobramentos dessa tradição, entre eles Selma Weissmann, Zanne Neiva, Janice Pires, Solange Raso e Décio Moreira Gomes Leite.
A linguagem tridimensional ganha presença por meio das esculturas em aço de Fátima Santiago, artista de projeção nacional e internacional e autora de importantes obras monumentais instaladas em espaços públicos brasileiros.
Não estamos, portanto, reunindo simplesmente nomes consagrados.
Estamos tentando contar uma história: a história de um mestre, de seus discípulos, de uma escola e daquilo que permaneceu depois deles.
Quando o acervo privado encontra o público
Há uma característica dessa exposição que considero fundamental registrar: ela nasce da iniciativa privada.
Todas as obras apresentadas são provenientes de acervos particulares, sendo, em sua maioria, pertencentes ao meu acervo pessoal, e foram colocadas em circulação para cumprir algo que considero uma das responsabilidades do colecionismo e do mecenato: permitir que sejam vistas.
Sempre entendi que possuir uma obra importante não deveria significar condená-la à invisibilidade.
Preservar é indispensável. Mas compartilhar também é uma forma de preservar.
Quando uma obra deixa temporariamente uma coleção particular e encontra um estudante, um professor, um artista, uma criança ou alguém que talvez jamais tenha tido contato próximo com um grande nome da arte brasileira, ela recupera uma dimensão essencial de sua existência.
É esse princípio que orienta grande parte das iniciativas que Zackia e eu temos desenvolvido: aproximar patrimônio e sociedade e fazer da circulação da arte um instrumento de formação, memória e pertencimento.
Zackia Daura e uma identidade construída às margens do rio
Falar desse percurso em Três Marias sem falar de Zackia Daura seria impossível.
Artista profundamente ligada à cidade e ao São Francisco, Zackia construiu uma produção que ultrapassou os espaços convencionais de exposição e passou a integrar o próprio imaginário local. Obras suas tornaram-se símbolos da paisagem, da memória e da identidade de Três Marias.
Nossa atuação conjunta encontrou força justamente na convicção de que a arte pode transformar a maneira como uma cidade se percebe e também a maneira como é percebida por quem chega.
No meu caso, essa caminhada reúne curadoria, colecionismo, mecenato, formação de patrimônio e representação de importantes instituições nacionais e internacionais, além de uma atuação constante em círculos institucionais e de diplomacia cultural, exercendo funções de especial confiança diretamente ligadas a presidências de entidades de representação e intercâmbio.
Ao longo desse percurso, arte, cultura e gastronomia têm servido como instrumentos de aproximação entre pessoas, instituições e países, em interlocução com câmaras de comércio, representações consulares, embaixadas, entidades internacionais e agentes ligados às relações culturais entre países.
Da capital mineira a Ouro Preto, Três Marias, Pirapora e outras localidades, tenho procurado defender um princípio que também orienta esta exposição: uma ação cultural não deve ser medida somente pelo que acontece enquanto ela está montada, mas também pela transformação que é capaz de provocar depois que termina.
Três Marias: acrescentar cultura a uma extraordinária vocação natural
Três Marias é nacionalmente reconhecida pela força do Rio São Francisco, por sua barragem, pela pesca e pelas experiências associadas à natureza. Tudo isso constitui parte incontornável de sua identidade e deve continuar sendo valorizado.
Mas uma cidade não precisa possuir uma única vocação.
Três Marias pode ser também destino de arte, cultura, gastronomia, música, patrimônio e conhecimento.
A proposta não é substituir o turismo tradicional, mas ampliá-lo, atraindo também um turismo cultural qualificado e de experiência: visitantes interessados em história, produção artística, gastronomia, patrimônio, música e experiências autorais; pessoas que permanecem na cidade, frequentam sua hotelaria, movimentam serviços e desejam estabelecer uma relação mais profunda com o território.
A cultura, nesse contexto, deixa de ser percebida somente como atividade artística e passa também a representar possibilidade de desenvolvimento turístico, econômico e de projeção da própria cidade.
Três Marias não deixa de ser a cidade do rio, da barragem e da pesca.
Passa a afirmar que é também cidade de arte, memória e cultura.
E o Mar Doce Boutique Hotel, que há anos vem fortalecendo sua relação com iniciativas artísticas, participa diretamente dessa nova percepção ao aproximar hospitalidade, natureza e produção cultural.
O visitante deixa de procurar somente um lugar onde se hospedar. Encontra uma experiência vinculada à identidade do destino.
Talvez esteja justamente aí uma das possibilidades mais interessantes para o futuro: somar à força da natureza a sofisticação da cultura.
Uma Pinacoteca que já começou a existir
Isso não é apenas uma intenção.
Quando levamos anteriormente a Três Marias a exposição “Chico da Silva . Mais do que um Artista, uma Escola”, com importantes obras do artista datadas de 1973, uma primeira obra foi oficialmente destinada ao Município como marco fundamental da criação da Pinacoteca de Três Marias.
Agora damos continuidade àquele gesto.
Durante a abertura de “Guignard e a Escola Mineira”, novas obras destinadas ao Município serão simbolicamente entregues, enquanto avançam as providências técnicas e administrativas necessárias à futura incorporação ao patrimônio público.
Uma exposição passa.
Uma Pinacoteca permanece.
E é exatamente nesse ponto que esta história encontra Pirapora.
Madalena Ribeiro: quando afinidades se transformam em realizações
Minha aproximação com Pirapora tem uma pessoa que não posso e não quero deixar em segundo plano: Madalena Ribeiro.
Existem pessoas que ocupam espaços. Outras criam pontes, aproximam ideias e fazem com que possibilidades se transformem em realizações.
Madalena pertence a esse segundo grupo.
Desde nossos primeiros diálogos, encontrei nela muito mais do que disponibilidade para apresentar pessoas ou promover interlocuções. Encontrei uma extraordinária capacidade de articulação, um espírito genuinamente inclusivo e uma preocupação muito clara com aquilo que podemos construir hoje para aqueles que virão amanhã.
Foi justamente aí que nossas ideias se encontraram.
Apesar de trajetórias distintas, percebemos rapidamente que compartilhávamos uma convicção essencial: cultura não deve ser privilégio de poucos, e patrimônio não pode ser pensado apenas para o presente.
Madalena compreendeu desde o primeiro momento que levar arte a Pirapora poderia significar muito mais do que realizar uma exposição. Com sua profunda ligação com a cidade, sua disponibilidade e sua capacidade de agregar diferentes pessoas em torno de objetivos comuns, tornou-se uma ponte fundamental entre a ideia e aqueles capazes de ajudar a transformá-la em realidade.
Sua articulação foi decisiva para aproximar pessoas, lideranças, instituições e autoridades municipais, criando um ambiente de diálogo no qual pudemos apresentar propostas, ouvir possibilidades e começar a pensar conjuntamente em algo destinado a permanecer.
Há também em Madalena uma qualidade que considero particularmente importante em qualquer pessoa que se disponha a trabalhar pela cultura: a capacidade de incluir.
De compreender que o patrimônio de uma cidade pertence simbolicamente a todos; que a arte pode aproximar gerações e diferentes segmentos sociais; e que investir em cultura significa investir também em educação, identidade e pertencimento.
Foi essa convergência que nos uniu.
E dessa união, os primeiros frutos já começaram a vingar.
Débora Ketlen: sensibilidade e disposição para participar
Nesse percurso, encontrei também na primeira-dama de Pirapora, Débora Ketlen, uma interlocutora especialmente sensível aos propósitos que orientam a iniciativa.
Desde nossas primeiras conversas, sua postura foi marcada não apenas pela receptividade, mas por uma disponibilidade concreta para participar ativamente das ações que começam a ser construídas para Pirapora.
Débora manifestou interesse em acompanhar e contribuir com essas etapas, compreendendo que projetos culturais dessa natureza não devem se limitar ao acontecimento presente, mas precisam ser pensados a partir daquilo que poderão representar para a cidade ao longo dos anos.
Sua preocupação com a cultura, a memória e aquilo que será transmitido ao povo que, ao lado do prefeito, representa estabelece importante convergência com os princípios que nos trouxeram até aqui.
Cultura não é somente programação ou entretenimento.
Cultura é identidade, educação, pertencimento e memória.
E aquilo que uma geração decide preservar revela também a cidade que deseja entregar à geração seguinte.
Foi essa compreensão que percebi em Débora: não apenas a disposição de apoiar, mas a vontade de participar da construção.
Pirapora: não queremos apenas levar uma exposição. Queremos deixar patrimônio.
Quando “Guignard e a Escola Mineira” concluir sua etapa em Três Marias, seguirá para Pirapora.
Mas há uma diferença fundamental.
Não queremos chegar, pendurar quadros, realizar uma abertura, receber visitantes e depois simplesmente recolher as obras.
Queremos que alguma coisa permaneça.
Por isso, juntamente com Zackia Daura, idealizamos e começamos a fomentar a formação de uma Pinacoteca em Pirapora, concebida como núcleo inicial de algo ainda mais abrangente: um futuro Centro de Cultura e Memória.
Já durante a abertura em Três Marias será realizada a entrega simbólica das obras destinadas a Pirapora, dentro das tratativas em implementação para que futuramente integrem o patrimônio público municipal.
A proposta é que a Pinacoteca constitua o primeiro núcleo de um espaço capaz de crescer progressivamente e reunir artes visuais, esculturas, documentação, memória, pesquisa, oficinas, formação e diferentes manifestações culturais.
Não estamos dizendo que tudo está pronto.
Estamos falando de uma semente que já começou a germinar.
Uma cidade que decidiu sentar-se à mesma mesa
Nenhum projeto dessa natureza se constrói sozinho.
Por isso, faço questão de registrar meu agradecimento ao prefeito de Pirapora, Alexsandro Costa César, pela total receptividade com que acolheu nossas ideias e pela abertura ao diálogo desde os primeiros contatos.
Essa mesma disposição foi encontrada nas lideranças do Poder Legislativo municipal e nos secretários que participaram das reuniões e tratativas, contribuindo para que uma proposta inicialmente cultural pudesse começar a ser compreendida em sua dimensão mais ampla para a cidade.
E a rede já ultrapassa os limites do Poder Público.
Encontramos apoio e receptividade também junto à Presidência da OAB – Subseção de Pirapora, à Maçonaria, a lideranças empresariais, representantes de instituições e diferentes segmentos da sociedade piraporense.
Isso é particularmente importante.
Quando Poder Público, iniciativa privada, sociedade civil organizada, instituições de classe, entidades tradicionais, lideranças empresariais e agentes culturais conseguem dialogar em torno de um objetivo comum, uma ideia deixa de pertencer a uma pessoa ou a um grupo e começa a adquirir dimensão coletiva.
A exposição chegará. As primeiras obras já estão sendo destinadas. A Pinacoteca começa a deixar o campo das ideias. O futuro Centro de Cultura e Memória começa a encontrar interlocutores e caminhos.
E aquilo que nasceu de encontros e afinidades começa progressivamente a assumir a dimensão de um projeto para Pirapora.
Do Velho Chico para além das fronteiras
Embora profundamente ligado ao território, esse movimento não possui repercussão apenas local.
Projetos dessa natureza alcançam projeção nacional e internacional e contam com importantes chancelas institucionais, entre elas a da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil , Minas Gerais e da Brazilian Community Heritage Foundation, nos Estados Unidos, além de outras instituições parceiras.
A exposição em Três Marias conta ainda com o apoio institucional da Prefeitura Municipal de Três Marias.
Essas articulações demonstram algo em que acredito profundamente: uma cidade do interior não precisa estar à margem dos grandes movimentos culturais simplesmente porque está distante dos grandes centros.
Talvez devamos inverter essa lógica.
Se a arte está concentrada, façamos a arte viajar.
Se os acervos estão fechados, façamos alguns deles circular.
E se determinados territórios ainda não possuem as instituições culturais que desejam, ajudemos a começar a construí-las.
Das montanhas às águas do Velho Chico
Há uma imagem que, para mim, resume tudo isso.
Guignard eternizou uma Minas de montanhas, igrejas, cidades suspensas e paisagens quase oníricas.
Agora, parte desse universo desce simbolicamente em direção às águas.
Das montanhas ao Velho Chico. De Três Marias a Pirapora.
E talvez a maior beleza dessa travessia esteja justamente naquilo que pretendemos deixar em suas margens.
Não apenas exposições.
Não apenas fotografias de uma noite de abertura.
Mas obras, acervos, memória, instituições e possibilidades.
Por isso, registro meu agradecimento ao prefeito Alexsandro Costa César e à primeira-dama Débora Ketlen; às lideranças do Legislativo municipal; aos secretários envolvidos nas tratativas; à Presidência da OAB – Subseção de Pirapora; à Maçonaria; às lideranças empresariais e aos representantes da sociedade civil que, desde os primeiros movimentos, demonstraram receptividade e disposição para contribuir.
E, de maneira muito especial, a Madalena Ribeiro, que foi ponte fundamental para que tantos desses encontros se tornassem possíveis. Sua disponibilidade, sua capacidade de articulação, seu espírito inclusivo e, sobretudo, sua preocupação com aquilo que podemos deixar às futuras gerações traduzem muito do espírito que desejamos imprimir a esse movimento.
Há ainda muito a construir. E justamente porque desejamos algo duradouro, cada passo deverá ser dado com responsabilidade, planejamento, diálogo e respeito às instituições.
Mas algo essencial já aconteceu:
sentamo-nos à mesma mesa e descobrimos que desejamos construir na mesma direção.
E juntos começamos a estabelecer um caminho sólido, forte e duradouro um caminho no qual a arte não seja apenas um acontecimento que chega a Pirapora, mas patrimônio que nela permaneça; no qual a cultura não seja apenas programação, mas identidade; e no qual a memória não seja apenas lembrança do passado, mas um compromisso coletivo com o futuro.
Porque democratizar a cultura não significa diminuir sua excelência.
Significa fazer com que a excelência possa chegar mais longe.
E se uma obra que hoje permanece silenciosamente em uma coleção particular puder amanhã integrar o patrimônio de uma cidade e ser contemplada por alguém que ainda nem nasceu, talvez tenhamos conseguido algo maior do que realizar uma exposição.
Teremos deixado um legado.
David Faria
A Mesa da Cultura
Aqui Acontece Pirapora






