Levantamento do Procon SP aponta mais de 10 mil reclamações entre janeiro e julho. Problemas relacionados à entrega de produtos já ultrapassaram, em apenas sete meses, o total registrado durante todo o ano passado
As Casas Bahia enfrentam uma combinação de dificuldades financeiras e aumento expressivo das reclamações de consumidores. Dados do Procon de São Paulo mostram que as queixas contra a varejista cresceram 65% entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.
Ao todo, foram registradas 10.617 reclamações no período analisado. O crescimento ocorre justamente em um momento delicado para o grupo, que entrou com pedido de recuperação judicial no último domingo, 16 de agosto, diante de uma dívida de aproximadamente R$ 17,3 bilhões.
O cenário coloca consumidores, fornecedores, funcionários e investidores diante de uma das maiores crises da história da tradicional rede varejista brasileira.
Problemas com entregas estão entre as principais queixas
Entre os problemas relatados pelos consumidores, as dificuldades relacionadas à entrega de produtos chamam atenção.
Segundo os dados divulgados, foram registradas 3.858 reclamações relacionadas à demora ou à ausência de entrega. O número já supera o total desse tipo de reclamação registrado durante todo o ano de 2025, representando um crescimento de 13,5% em relação ao acumulado do ano passado.
As queixas não se restringem às entregas. Consumidores também relatam dificuldades envolvendo estornos, produtos entregues incorretamente e mercadorias com defeitos.
A situação amplia a preocupação de quem realizou uma compra recentemente ou ainda possui pagamentos vinculados a contratos com a empresa.
Recuperação judicial não significa que a empresa fechou as portas
Um ponto importante para o consumidor é entender o que significa o pedido de recuperação judicial.
A medida não representa, automaticamente, o encerramento das atividades da empresa nem significa que as lojas deixarão de funcionar imediatamente.
A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para permitir que empresas em dificuldades financeiras reorganizem suas dívidas e tentem preservar suas atividades. Nesse processo, a companhia apresenta um plano de reestruturação que precisa ser analisado e submetido aos credores.
No caso das Casas Bahia, o pedido envolve dez empresas da holding e tem como objetivo reorganizar um passivo estimado em R$ 17,3 bilhões.
E quem já comprou e ainda não recebeu?
A situação exige atenção de quem possui uma compra em andamento.
O pedido de recuperação judicial não elimina os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor. Caso um produto comprado não seja entregue, o consumidor pode buscar o cancelamento da compra e a restituição do valor, observadas as regras aplicáveis ao caso.
Também continuam existindo direitos relacionados a produtos que apresentem defeitos, incluindo as possibilidades previstas na legislação de troca, reparo ou restituição, conforme cada situação.
Especialistas ouvidos pela imprensa destacam que a recuperação judicial não suspende os direitos básicos dos consumidores.
Por isso, guardar comprovantes de pagamento, nota fiscal, pedido, protocolos de atendimento, mensagens e demais documentos é fundamental para quem enfrentar algum problema.
Crise financeira se agravou em 2026
O aumento das reclamações acontece em paralelo a uma deterioração significativa da situação financeira do grupo.
No segundo trimestre de 2026, as Casas Bahia registraram prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões. Desse montante, aproximadamente R$ 9,1 bilhões estão relacionados a efeitos contábeis sem impacto imediato no caixa, mas o prejuízo ajustado também apresentou crescimento e chegou a R$ 978 milhões.
A empresa também passou por uma redução significativa de sua estrutura operacional. Cerca de 298 lojas foram fechadas e milhares de trabalhadores foram desligados durante o processo de reestruturação.
O cenário mostra que o problema não está restrito às reclamações dos consumidores. A companhia enfrenta dificuldades relacionadas à sua estrutura financeira, operação e capacidade de reorganizar seus compromissos.
Consumidor deve ficar atento
Para quem possui relacionamento com a empresa, o momento exige principalmente organização.
Consumidores que têm compras em andamento devem acompanhar os pedidos e manter todos os comprovantes. Em caso de atraso, cancelamento, produto não entregue ou problema com estorno, é recomendável registrar formalmente a reclamação junto à empresa e guardar o protocolo.
Se o problema não for solucionado, o consumidor pode procurar os órgãos de defesa do consumidor e avaliar as medidas cabíveis.
Outro cuidado importante é não interromper automaticamente pagamentos de contratos ou carnês por conta própria. Cada situação possui regras específicas e, diante de uma dúvida, o consumidor deve buscar orientação adequada antes de tomar qualquer decisão.
Uma crise que vai além das Casas Bahia
A situação das Casas Bahia também serve como alerta para o consumidor brasileiro.
Empresas tradicionais e marcas consolidadas não estão imunes a crises financeiras. Por isso, em compras de valores elevados, especialmente aquelas realizadas pela internet, é importante verificar prazos, condições de pagamento, políticas de troca e reputação da empresa.
O aumento das reclamações registrado pelo Procon SP demonstra que, quando uma empresa enfrenta dificuldades operacionais e financeiras, os efeitos podem chegar rapidamente ao consumidor.
No caso das Casas Bahia, o desafio agora será conciliar a reestruturação bilionária da companhia com a manutenção do atendimento e o cumprimento das obrigações assumidas com seus clientes.
Para o consumidor, a regra é simples: informação, documentação e atenção.
O pedido de recuperação judicial muda o cenário financeiro da empresa, mas não apaga os direitos de quem comprou, pagou e espera receber aquilo que foi contratado.
O Aqui Acontece acompanha os principais desdobramentos econômicos que podem afetar diretamente o consumidor brasileiro.






