Propaganda eleitoral revela estratégias diferentes entre candidatos e coloca temas como atuação do Supremo, dívida de Minas e representação dos municípios no centro do debate
A disputa pelas duas vagas de Minas Gerais no Senado Federal começa a assumir um tom mais definido no horário eleitoral. Na propaganda veiculada na segunda feira (7), candidatos utilizaram seus espaços para apresentar propostas, reforçar trajetórias políticas e, principalmente, posicionar-se sobre temas que vêm dominando o debate nacional, como a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e a relação entre os poderes.
A estratégia, no entanto, não é uniforme. Enquanto parte dos candidatos transforma o STF em um dos principais alvos do discurso eleitoral, outros procuram concentrar a campanha em temas econômicos, na defesa dos municípios, na trajetória política e na atuação parlamentar.
A análise foi publicada pelo jornal O TEMPO nesta terça feira (8).
Críticas ao STF ganham espaço na campanha
Entre os candidatos que intensificaram as críticas ao Supremo está Áurea Carolina (PSOL). Em sua inserção, a candidata afirmou que o Senado possui grande poder e recursos e defendeu uma atuação de fiscalização sobre o STF. Segundo ela, caso seja eleita, pretende enfrentar o que considera abusos dos chamados “donos do poder”.
O discurso também foi adotado por Domingos Sávio (PL), que voltou a destacar seu alinhamento com a família Bolsonaro e com o deputado federal Nikolas Ferreira. Em sua propaganda, o candidato associou sua candidatura à necessidade de mudanças no país e voltou a fazer críticas à atuação das instituições.
Marcelo Aro (PP) adotou uma postura ainda mais direta. O candidato defendeu a renovação da representação de Minas no Senado e afirmou que pretende atuar pelo impeachment de ministros do STF. Aro também incluiu em seu discurso uma proposta de castração química para condenados por estupro.
O movimento mostra como a relação entre Congresso e Supremo se tornou um dos assuntos utilizados por candidatos para demarcar posição ideológica diante do eleitorado.
Aécio coloca a dívida de Minas no centro do discurso
Em uma estratégia diferente, Aécio Neves (PSDB) utilizou seu espaço para destacar sua trajetória como governador de Minas Gerais e apresentar a dívida do Estado como uma das prioridades de sua eventual atuação no Senado.
O candidato afirmou que pretende fortalecer a representação mineira em Brasília e buscar melhores condições para o pagamento do passivo de Minas com a União, de forma a abrir espaço para investimentos em áreas como saúde e segurança pública.
A dívida estadual é uma questão que ultrapassa a disputa eleitoral. Minas Gerais possui um passivo bilionário com a União e o tema tem sido tratado como um dos principais desafios fiscais do Estado.
Dados citados em reportagem recente apontam que a dívida passou de R$ 179,3 bilhões, em dezembro de 2025, para R$ 186,47 bilhões em junho de 2026, mesmo após pagamentos realizados dentro do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag.
A discussão sobre o endividamento mineiro, portanto, deve permanecer no centro da eleição, especialmente porque qualquer solução envolve negociação entre o governo estadual, o governo federal e o Congresso Nacional.
Marília Campos aposta na experiência municipal
A candidata Marília Campos (PT) escolheu outro caminho para se apresentar aos eleitores. Prefeita de Contagem, ela destacou sua experiência na administração municipal e afirmou que pretende representar as demandas dos municípios mineiros no Congresso.
Na propaganda, Marília citou questões presentes diretamente na vida da população, como atendimento médico, limpeza urbana e transporte público.
A estratégia aproxima a candidatura de uma agenda mais municipalista e procura apresentar o Senado não apenas como espaço de disputa política nacional, mas também como instrumento para buscar recursos e soluções para problemas enfrentados diariamente pelas cidades.
Arcanjo Pimenta destaca representatividade
Arcanjo Pimenta (MDB) apostou em sua trajetória pessoal e na representatividade. O candidato destacou ser o primeiro homem negro de um partido de centro a disputar uma vaga ao Senado por Minas Gerais e afirmou querer se tornar uma referência para crianças e jovens das periferias.
A fala coloca a representatividade social como elemento central de sua campanha, em uma disputa na qual os candidatos procuram estabelecer identidades eleitorais distintas.
Carlos Viana reforça atuação na CPMI do INSS
Carlos Viana (PSD), por sua vez, voltou a utilizar sua participação na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS como principal marca de campanha.
O candidato se apresenta como “o senador da CPMI” e utiliza trechos relacionados à investigação para reforçar a imagem de parlamentar disposto a enfrentar estruturas de poder e fiscalizar a utilização de recursos públicos.
A estratégia dá continuidade ao posicionamento adotado nas inserções anteriores e busca transformar a atuação na comissão em uma espécie de cartão de apresentação junto ao eleitor.
Duas vagas e uma disputa que tende a ganhar intensidade
Minas Gerais terá duas vagas em disputa para o Senado nas eleições deste ano. A característica da eleição aumenta a importância da estratégia de cada candidatura, já que o eleitor mineiro poderá escolher dois nomes.
Com o avanço da campanha, a tendência é que os candidatos intensifiquem a diferenciação entre suas propostas e posições políticas.
De um lado, o discurso de oposição ao STF ganha força entre candidaturas alinhadas à direita. De outro, aparecem propostas concentradas na dívida estadual, na defesa dos municípios, na experiência administrativa e na representatividade social.
O cenário revela uma eleição para o Senado que não deverá ser definida apenas pela popularidade dos candidatos, mas também pela capacidade de cada campanha de transformar pautas nacionais e problemas concretos de Minas Gerais em argumentos capazes de conquistar o eleitor.
Para o mineiro, a escolha terá uma consequência direta: os dois nomes eleitos terão a responsabilidade de representar o Estado em Brasília, participar da elaboração das leis federais, fiscalizar o governo e atuar em decisões de grande impacto nacional.
E, diante de uma dívida estadual que se aproxima dos R$ 200 bilhões, além de uma relação cada vez mais tensionada entre Congresso e Supremo, a próxima bancada mineira no Senado terá temas de enorme peso sobre a mesa.