Como se fosse de verdade”: bebês reborn e o vazio emocional que ninguém quer encarar.

Eles não choram. Não mamam de verdade. Mas têm nome, cheiro, pulseira da maternidade e até registro de nascimento. Os bebês reborn, bonecas ultrarrealistas feitas para parecerem recém-nascidos, viraram febre e estão longe de ser apenas brinquedos.

Nas redes sociais, vídeos que mostram adultos cuidando desses bebês acumulam milhões de visualizações. Algumas pessoas alimentam, embalam, levam para passear em carrinhos de verdade. Outras montam quartinhos inteiros, compram roupas sob medida, fazem ensaios fotográficos. O fenômeno cresceu a ponto de gerar um mercado próprio e, junto com ele, um debate que incomoda: o que esse comportamento revela sobre o vazio emocional da nossa era?

Quando o afeto vira substituto

Segundo a psicóloga Suzy Pinho Pereira, especialista em saúde mental materna, o uso de bebês reborn por mulheres que enfrentaram perdas gestacionais pode, inicialmente, parecer terapêutico, mas esconde riscos. Em entrevista à Notícias Magazine, ela afirma:

“O problema é quando estas mulheres passam a achar que este bebé é mesmo verdadeiro. Porque o bebé não vai crescer. E, portanto, todo o processo de luto fica em suspenso. Não há um desfecho emocional.”

Ou seja, o reborn não resolve a dor apenas a adormece por tempo indeterminado. E essa pausa emocional pode custar caro.

Realismo demais para um mundo cada vez mais irreal

O psicólogo Aurélio Melo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, abordou o tema em reportagem da Revista Crescer e levantou um ponto essencial:

“Trata-se de uma relação vazia. A pessoa interage consigo mesma. Não há troca, não há frustração. Isso pode alimentar uma regressão emocional.”

Segundo ele, há um limite entre o uso simbólico e o risco de desenvolver um transtorno. “Com o tempo, o real e o imaginário podem se confundir. E a brincadeira pode se tornar uma prisão emocional.”

Um mercado que cresce no silêncio

Enquanto o debate gira em torno da saúde mental, o mercado dos reborns movimenta cifras cada vez mais expressivas. Uma boneca pode custar de R$ 400 a mais de R$ 5 mil, dependendo do grau de realismo. Existem artistas especializadas na pintura das peles, na costura das roupinhas e até na criação de acessórios personalizados. Há enxovais completos, berços sob medida, ensaios newborn com fotógrafos profissionais e até feiras específicas para colecionadores.

Segundo dados levantados pela reportagem do G1, o segmento de bonecas reborn dobrou no Brasil nos últimos cinco anos. Plataformas como Shopee e Mercado Livre revelam um crescimento contínuo na procura por esses produtos. No YouTube e no Instagram, perfis com centenas de milhares de seguidores exibem rotinas com os “bebês”, gerando renda com visualizações, publis e vendas personalizadas.

Ou seja: por trás da aparência frágil das bonecas, existe uma indústria potente, lucrativa e emocionalmente carregada.

O buraco não é o bebê. É o que ele cobre

Por trás da estética doce, do cheiro de talco e da roupinha bordada, existe uma ausência que grita. O crescimento desse fenômeno levanta uma questão profunda: o que falta em quem busca a presença de algo que não exige reciprocidade?

Em um mundo onde o afeto se tornou instável, onde a presença do outro exige entrega, escuta e vulnerabilidade, o reborn oferece o contrário: previsibilidade, silêncio, controle.

Como analisa a socióloga Fernanda Luz, da UFMG:

“O reborn é a manifestação visível de um vazio invisível: o da conexão humana real. Troca-se o imprevisível do outro pelo previsível do objeto.”

A era do afeto plastificado?

Em meio à cultura do autocuidado, da performance emocional e da hiperconectividade, o afeto real foi perdendo espaço. Cuidar de um bebê real implica noites mal dormidas, medos, decisões. Cuidar de um reborn é seguro — mas é real?

O psicólogo Aurélio Melo é enfático:

“É como brincar de ser mãe, mas sem o vínculo que transforma. A boneca não exige nada. Isso pode se tornar um espelho narcísico, e não uma relação verdadeira.”

E o diálogo, onde entra?

Essa matéria não é um julgamento. É um convite. Um espelho.

Por que estamos preferindo o controle de um boneco ao caos humano de um relacionamento real?
Por que há tanto medo de sentir, de se vincular, de sofrer e de recomeçar?

O Aqui Acontece Pirapora acredita que precisamos falar sobre o que silencia. Sobre o que substitui. Sobre o que anestesia.

O reborn pode ter função terapêutica, sim. Mas também pode se tornar um abrigo para dores que só o contato humano pode curar.

E você? O que pensa sobre tudo isso?
Já viu esse fenômeno nas redes? Acredita que ele ajuda ou mascara dores mais profundas?

Vamos conversar. Comente. Reflita. Compartilhe.

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