O Brasil registrou aumento no número de novos diagnósticos de HIV nos últimos três anos. A informação vem do próprio Ministério da Saúde e coloca em xeque a ideia de que o HIV está sob controle no país. Apesar dos avanços no acesso a medicamentos como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), a prevenção tradicional aquela que passa pelo diálogo, pela camisinha e pela informação tem sido deixada de lado. E o preço disso pode ser alto.
O cenário em números
Segundo o último Boletim Epidemiológico HIV/Aids, divulgado pelo Ministério da Saúde, o Brasil teve, em 2023, 45 mil novos casos de HIV. O número representa uma alta de quase 5% em relação ao ano anterior. Em 2022, já havia sido registrada uma subida em relação a 2021. Ou seja, é uma curva de crescimento contínua.
Os grupos mais afetados são:
Jovens de 20 a 29 anos, em sua maioria homens que fazem sexo com homens (HSH);
Pessoas acima dos 50 anos, faixa etária onde também houve crescimento.
Essa realidade exige uma leitura menos simplista. O vírus não escolhe idade, gênero ou orientação sexual. A exposição, sim.
PrEP: avanço necessário, mas não é escudo absoluto
A expansão do uso da PrEP no Brasil hoje com mais de 109 mil usuários ativos, segundo dados de 2024 é uma vitória. Mas também acendeu um alerta entre especialistas: muitas pessoas, confiando unicamente no medicamento, passaram a abandonar o uso do preservativo. Isso não apenas aumenta a exposição ao HIV (caso a PrEP não seja tomada corretamente), como abre as portas para outras ISTs, como sífilis, gonorreia e hepatites.
A falsa sensação de segurança pode, ironicamente, levar ao risco que se queria evitar.
Idosos: sexualidade ativa e falta de prevenção
Há também uma mudança cultural em curso. O aumento da expectativa de vida e o uso de medicamentos que prolongam a atividade sexual (como o citrato de sildenafil, popularmente conhecido como Viagra) fizeram crescer o número de relações sexuais na terceira idade. No entanto, a maioria das campanhas preventivas ainda não dialoga com esse público, que muitas vezes não se vê como grupo de risco e deixa de usar preservativo.
Resultado: o índice de infecção por HIV entre pessoas com mais de 60 anos tem aumentado nos últimos anos. Um dado pouco comentado, mas que precisa ser enfrentado com seriedade.
Aplicativos, relações casuais e desinformação
A cultura do sexo casual, especialmente entre jovens usuários de aplicativos de encontros, também influencia no cenário. A banalização do risco, somada à ausência de campanhas eficazes nas escolas e nas redes sociais, cria um terreno fértil para o avanço do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis.
Há uma diferença entre liberdade sexual e irresponsabilidade. E isso precisa ser debatido sem moralismo, mas com responsabilidade social.
Prevenção é também inclusão
Outro fator importante: o estigma. Muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente homens gays e pessoas trans, ainda evitam os serviços de saúde por medo de julgamento ou constrangimento. A testagem precoce, o aconselhamento e o acompanhamento só funcionam quando há acolhimento e respeito.
O combate à Aids não é apenas uma questão de saúde é uma questão de dignidade.
Aqui Acontece Pirapora reforça: prevenção é um ato de cuidado coletivo
Num tempo em que há informação de sobra, desinformar-se é uma escolha perigosa. O HIV não tem cara, não escolhe cor, nem orientação sexual. O que faz a diferença é a forma como cada um decide se proteger e proteger quem está ao lado.
A prevenção não se resume à camisinha, nem à PrEP. Ela começa com educação, responsabilidade, respeito e acolhimento.
Fica o convite: que cada um faça sua parte e que o poder público intensifique campanhas claras, acessíveis e contínuas.







