Maternidade compulsória e paternidade optativa: quando o peso da criação ainda recai sobre as mulheres

Por Redação Aqui Acontece | Especial

Num país em que mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento, segundo dados do CNJ, é urgente jogar luz sobre uma verdade silenciosa: a maternidade, muitas vezes, ainda é compulsória. A paternidade, por sua vez, continua sendo uma escolha.

A maternidade compulsória ocorre quando a mulher, pressionada por normas sociais, religiosas ou legais, é levada a assumir a maternidade como destino inevitável e não como uma decisão consciente. Já a paternidade optativa é o fenômeno em que os homens podem escolher se desejam ou não assumir a responsabilidade pela criação de seus filhos, com pouca ou nenhuma sanção social.

A conta nunca fecha

Quando uma gravidez acontece fora do planejamento, é quase automático: o ônus recai sobre a mulher. Se ela opta por continuar a gestação, passa a ser cobrada por cuidados físicos, emocionais, afetivos e financeiros. Se escolhe interrompê-la onde isso é possível é julgada. O pai? Muitas vezes ausente, quando não é apenas biológico e irrelevante na equação.

Um ciclo que se perpetua.

As estruturas sociais patriarcais continuam reforçando a ideia de que “mãe é mãe”, enquanto “pai é quem quer”. Essa lógica desumaniza as mulheres e infantiliza os homens. As mães solo, majoritariamente mulheres negras e pobres, enfrentam sozinhas o peso de educar, alimentar, proteger e amar enquanto a sociedade romantiza sua resiliência e ignora a ausência paterna.

Por que precisamos falar sobre isso agora

Ignorar esse desequilíbrio é compactuar com ele. Trazer esse debate à tona é uma responsabilidade coletiva. O silêncio institucional, a falta de políticas públicas eficazes, a ausência de responsabilização legal e o machismo estrutural são peças de um sistema que oprime mães e exime pais.

Falar sobre maternidade compulsória e paternidade optativa não é um ataque à paternidade responsável é um chamado à equidade. É sobre garantir que nenhuma mulher seja forçada à maternidade. É sobre exigir que homens entendam que ser pai é um compromisso, não uma opção descartável.

O que pode mudar?

Educação sexual e afetiva desde cedo;

Políticas públicas de apoio às mães e penalização efetiva de pais ausentes;

Reformulação do discurso midiático que glorifica a “mãe guerreira” e naturaliza o “pai que ajuda”;

Apoio à autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos e suas vidas.

Chegou a hora de parar de naturalizar o abandono paterno. Porque cuidar de uma criança é um ato de responsabilidade, não de gênero.

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