Estado teve a terceira maior taxa de abstenção do país no primeiro turno e pode se tornar decisivo na disputa presidencial de 25 de outubro**
Minas Gerais voltou a ocupar posição estratégica no cenário nacional após o primeiro turno das eleições de 2026. Além de ser o segundo maior colégio eleitoral do país, o estado registrou uma das maiores taxas de abstenção do Brasil e agora aparece como um dos principais territórios na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, pelo Palácio do Planalto.
No primeiro turno, realizado no domingo, 4 de outubro, **3.735.098 eleitoras e eleitores mineiros não compareceram às urnas**, o equivalente a aproximadamente **22,81% do eleitorado**. O percentual ficou acima da média nacional, que foi de 21,08%, com mais de 33 milhões de brasileiros ausentes.
Com esse resultado, Minas Gerais registrou a **terceira maior taxa de abstenção entre os estados brasileiros**, atrás apenas de Mato Grosso do Sul, com 23,87%, e Rio de Janeiro, com 23,32%.
## Um eleitorado maior do que a diferença entre os candidatos
O tamanho desse contingente chama ainda mais atenção quando colocado diante do resultado da disputa presidencial em Minas.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula no estado. O candidato do PL recebeu cerca de **5,77 milhões de votos**, enquanto Lula obteve aproximadamente **5,19 milhões**. A diferença entre os dois ficou em torno de **588 mil votos**.
Isso significa que o número de mineiros que não foram às urnas foi várias vezes superior à diferença que separou os dois candidatos.
Não significa, evidentemente, que os abstencionistas sejam automaticamente votos disponíveis para qualquer candidato. Quem não compareceu pode ter diferentes razões para ter ficado fora da votação e não necessariamente pretende votar em um dos dois nomes no segundo turno.
Mas, eleitoralmente, o dado é relevante.
Em uma eleição marcada por uma disputa nacional extremamente apertada, cada grupo de eleitores mobilizado pode alterar a correlação de forças.
Além dos 3,7 milhões de ausentes, Minas Gerais registrou **661.039 votos brancos ou nulos**. Somados, os eleitores que não escolheram efetivamente um dos candidatos à Presidência ultrapassam a marca de **4,3 milhões de pessoas**.
## Por que Minas é tão importante
A importância de Minas Gerais não está apenas no tamanho do eleitorado.
O estado possui **16.377.659 eleitoras e eleitores aptos a votar**, correspondendo a 10,32% do eleitorado brasileiro. É o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo.
Historicamente, Minas também ocupa uma posição simbólica na disputa presidencial. Desde a redemocratização, nenhum candidato chegou à Presidência sem vencer no estado, o que reforça o peso político atribuído ao eleitorado mineiro.
Em 2026, porém, o cenário ganhou uma particularidade.
Embora Flávio Bolsonaro tenha terminado à frente de Lula na soma dos votos mineiros, o petista venceu em **452 municípios**, enquanto o candidato do PL liderou em **401 cidades**. A diferença foi determinada principalmente pelo desempenho de Flávio nos municípios mais populosos, entre eles Belo Horizonte.
O resultado mostra que a disputa em Minas não pode ser analisada apenas pela quantidade de municípios conquistados por cada candidato. O tamanho do eleitorado dessas cidades teve peso decisivo na composição do resultado estadual.
## A abstenção também virou alvo de campanha
É justamente nesse cenário que os milhões de eleitores ausentes passam a ganhar importância na estratégia das duas campanhas.
Com o segundo turno marcado para **25 de outubro**, Lula e Flávio Bolsonaro terão menos de três semanas para tentar ampliar seus respectivos eleitorados.
O desafio não será apenas convencer quem votou em candidatos que ficaram fora da disputa. Também será necessário estimular parte dos eleitores que simplesmente não compareceram no primeiro turno a retornar às urnas.
O problema é que não existe garantia de que uma redução da abstenção beneficiará automaticamente um dos dois candidatos.
A experiência eleitoral mostra que o comportamento dos abstencionistas é heterogêneo. Há eleitores que não comparecem por questões logísticas, dificuldade de deslocamento ou problemas cadastrais. Outros deixam de votar por desinteresse, descrença na política ou por não se identificarem com as opções apresentadas.
Por isso, transformar os 3,7 milhões de ausentes em uma espécie de bloco eleitoral seria uma simplificação.
O que existe é um enorme universo de eleitores que ainda precisa ser mobilizado.
## O histórico mostra que recuperar todos esses eleitores será difícil
A expectativa de uma redução expressiva da abstenção também precisa ser analisada com cautela.
Em 2022, por exemplo, a abstenção nacional caiu levemente entre o primeiro e o segundo turno, em meio ao forte acirramento da disputa entre Lula e Jair Bolsonaro. Mesmo assim, mais de 32 milhões de brasileiros deixaram de votar.
Especialistas ouvidos por O Tempo avaliam que não há indicativo suficiente para apostar em uma queda brusca da abstenção em 2026. O cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec em Belo Horizonte, destacou que o comportamento observado em eleições anteriores recomenda cautela na expectativa de uma grande recuperação do comparecimento.
O cenário nacional também merece atenção. A eleição de 2026 registrou **21,08% de abstenção no primeiro turno**, o maior índice observado em uma eleição geral desde 1998, segundo levantamento baseado nos dados da Justiça Eleitoral.
## Minas será novamente uma peça central no segundo turno
A combinação de três fatores coloca Minas Gerais no centro da eleição presidencial.
O primeiro é o tamanho do eleitorado.
O segundo é o resultado apertado entre Lula e Flávio Bolsonaro no estado.
O terceiro é o elevado número de eleitores que não participaram do primeiro turno.
O estado possui mais de 16 milhões de eleitores aptos. Quase 3,7 milhões não compareceram e mais de 660 mil votaram em branco ou anularam o voto.
Em uma eleição na qual a diferença nacional entre os dois candidatos foi inferior a dois pontos percentuais, qualquer movimentação relevante no eleitorado mineiro poderá ter impacto direto no resultado final.
Por isso, a disputa pelo voto em Minas tende a ganhar intensidade nas próximas semanas.
As campanhas deverão mirar não apenas os eleitores que escolheram candidatos derrotados no primeiro turno, mas também aqueles que ficaram fora das urnas.
A questão que permanece aberta é simples, mas politicamente decisiva:
**quantos dos milhões de mineiros que não votaram no primeiro turno irão às urnas em 25 de outubro e, principalmente, para quem irão direcionar seus votos?**
A resposta poderá ajudar a definir não apenas o resultado em Minas Gerais, mas a própria eleição presidencial de 2026.



